Sond’Ar-te Electric Ensemble [Estreias de Novas Obras]
24 Abril, 2026 às 21h00 (sexta-feira)
no Clube de Viseu
Entrada: 3€ • Adquirir bilhete
Maiores de 3 anos. Bilhete obrigatório.
O Sond’Ar-te Electric Ensemble, apresenta neste programa um percurso musical que se inscreve plenamente na temática “Insurgência” do Festival Música Viva 2026 em parceria com o Festival Internacional de Música da Primavera de Viseu. Reunindo três estreias absolutas dos compositores portugueses Carlos Lopes, Pedro Berardinelli e José Carlos Sousa, obras encomendadas pelo próprio ensemble e pela Miso Music Portugal, o programa afirma a criação contemporânea como espaço de risco, de pensamento e de afirmação artística.
Estas novas obras dialogam com uma das criações mais emblemáticas do século XX, o Quatuor pour la fin du temps de Olivier Messiaen, composto e estreado em 1941 no campo de prisioneiros de guerra de Görlitz. Nascida num contexto extremo de violência e privação, esta obra permanece como um poderoso testemunho da capacidade da música para afirmar a dignidade humana e a transcendência mesmo nas circunstâncias mais adversas.
Ao colocar em diálogo a urgência da criação contemporânea com esta obra seminal, o Sond’Ar-te Electric Ensemble constrói um programa que entende a música como gesto de resistência, de consciência e de liberdade. Interpretado por músicos de reconhecida excelência artística e profundo compromisso com a música do nosso tempo, este concerto propõe uma experiência de escuta intensa, onde a criação se afirma como espaço de insurgência poética e ética – um ato de imaginação crítica perante as tensões e desafios do presente.
Programa
JOSÉ CARLOS SOUSA (1972)
Mafish Mushkila — EA *
PEDRO BERARDINELLI (1985)
Nova obra, título a definir — EA **
CARLOS LOPES (1995)
in Pulses — EA ***
OLIVIER MESSIAEN (1908–1992)
Quarteto para o fim do tempo (1941)
I. Liturgie de cristal
II. Vocalise, pour l’Ange qui annonce la fin du Temps
III. Abîme des oiseaux
IV. Intermède
V. Louange à l’Éternité de Jésus
VI. Danse de la fureur, pour les sept trompettes
VII. Fouillis d’arcs-en-ciel, pour l’Ange qui annonce la fin du Temps
VIII. Louange à l’Immortalité de Jésus
EA — Estreia absoluta
* Encomenda Sond’Ar-te Electric Ensemble
** Encomenda conjunta FIMPViseu e Miso Music Portugal
*** Encomenda Miso Music Portugal
Ficha Artística
Sond’Ar-te Electric Ensemble
Guillaume Bourgogne – Direção
Sílvia Cancela – Flauta
Nuno Pinto – Clarinete
Vítor Vieira – Violino
Filipe Quaresma – Violoncelo
João Casimiro Almeida – Piano
João Dias – Percussão
3 Novas Obras de Compositores Portugueses – Notas do programa
JOSÉ CARLOS SOUSA
“Mafish mushkila” (مافيش مشكلة)
“Mafish mushkila foi composta a partir de uma encomenda do Sond’Ar-te Electric Ensemble e inspira-se numa viagem recente ao Egipto, cujas experiências e contrastes marcaram profundamente o imaginário da obra.
A expressão árabe mafīsh mushkila, muito comum no quotidiano egípcio, significa literalmente “não há problema” e é frequentemente usada num sentido próximo de “sem stress” ou “tranquilo”. Foi a frase que mais ouvimos do taxista que acabou por se tornar também o nosso guia. A visita às monumentais Pirâmides de Gizé e à necrópole de Saqqara suscitou uma profunda reflexão sobre a capacidade humana de imaginar e construir obras destinadas a atravessar milénios. A par dessa experiência monumental, a descoberta de um Cairo menos visível — nomeadamente a City of the Dead e Garbage City — revelou uma realidade complexa onde história, vida quotidiana e sobrevivência se entrelaçam.
Entre deslumbramento histórico e realidade contemporânea, Mafish mushkila procura transformar em som essas experiências e evocar, num mundo marcado por inquietação e conflito, a serenidade contida nessa expressão egípcia: “não há problema”.
Num tempo particularmente inquieto, marcado por guerras, desinformação e múltiplas formas de radicalização, Mafish mushkila evoca, de forma simbólica, a possibilidade de um espaço interior de calma.
Talvez seja urgente recuperar algo da serenidade implícita naquela expressão tão simples que tantas vezes ouvimos no Egito: mafīsh mushkila.”
– José Carlos Sousa
PEDRO BERARDINELLI
“Nova obra, título a definir.”
“Esta obra para flauta baixo, clarinete baixo, violoncelo, piano e percussão resulta de uma co-encomenda do Festival Internacional de Música da Primavera de Viseu e da Miso Music Portugal. Tendo a flauta baixo como elemento central na articulação do discurso, a obra, embora não apresente uma cantora ou atriz em palco, parte da voz humana como ponto de origem.
Assim, a voz — quer falada quer cantada — começa por se manifestar de forma autónoma, para gradualmente interagir e estabelecer uma relação com a flauta baixo e, posteriormente, com os restantes músicos e pessoas presentes na sala.”
– Pedro Berardinelli
CARLOS LOPES
“in Pulses”
““in Pulses” é uma tentativa de condensar, no seu título, toda a informação descritiva da obra. O nome pode ser entendido como em pulsos ou impulsos, sendo que esse duplo sentido molda a peça a vários níveis. A música é impulsionada por pequenos gestos que quase são desenvolvidos de forma linear, acabando sempre por ser interrompidos. A peça não se desenrola num fluxo contínuo, mas antes como uma sequência de pulsos rítmicos que surgem, desaparecem e reaparecem.
Visualmente, o título sugere também separação: o espaço entre cada impulso. Esta espécie de ausência tornou-se uma ferramenta composicional importante – ao longo da peça, pequenas cadências instrumentais pontuam a narrativa. Estas “pausas” criam momentos suspensos que interrompem o fluxo musical, ainda que funcionem como transições ou preparações para o que se segue. Neste sentido, a peça desconstrói conscientemente a perceção linear da forma e do tempo musical.
Quando escrevo música de câmara, sinto uma certa liberdade que outros géneros nem sempre me permitem. A intimidade do contexto, a proximidade entre intérpretes e ouvintes, o espaço acústico mais reduzido, entre outros fatores, criam margem para o risco formal e para a experimentação. Ao contrário da minha escrita orquestral, onde a continuidade em larga escala e um fluxo direcional muitas vezes parecem necessários, esta peça resiste à ideia de uma trajetória global. Em vez disso, convida o ouvinte a experienciar o tempo como fragmentado e elástico, focando-se sobretudo no instante.”
– Carlos Lopes
Biografias do Ensemble
SOND’AR-TE ELECTRIC ENSEMBLE
O Sond’Ar-te Electric Ensemble é um ensemble inovador dedicado à música contemporânea no panorama europeu da nova música. A sua estrutura base assenta na combinação permanente de 5 a 7 instrumentos acústicos (flauta, clarinete, violino, violoncelo, piano + viola + percussão + voz) frequentemente com eletrónica, apoiando-se na experiência técnica do Miso Studio.
O repertório do Sond’Ar-te Electric Ensemble abrange algumas das mais importantes obras para ensemble de 5 a 8 instrumentos dos séculos XX e XXI. Uma das características centrais deste projeto é a encomenda regular de novas obras, promovendo assim o desenvolvimento forte e dinâmico da música de câmara contemporânea com eletrónica, com especial atenção à criação portuguesa.
Constituído por uma geração de músicos de excecional qualidade, com carreiras individuais como solistas, o ensemble alcançou, desde a sua estreia em setembro de 2007, um elevado nível artístico, afirmando-se como uma referência em Portugal e no estrangeiro. Para além da sua atividade concertística em Portugal, apresentou-se também na Alemanha, Canadá, Coreia do Sul, Espanha, França, Japão, Polónia, Reino Unido e Suíça. Paralelamente, o Sond’Ar-te tem desenvolvido projetos de teatro musical multimédia, atividades pedagógicas como o Forum for Young Composers, e iniciativas de formação de públicos através de programas especialmente concebidos para jovens.
Biografias dos compositores
JOSÉ CARLOS SOUSAJosé Carlos Almeida de Sousa nasceu em Viseu – Portugal, em 1972. Iniciou os seus estudos musicais no Conservatório Regional de Música Dr. José de Azeredo Perdigão, na sua cidade natal onde concluiu o curso geral de composição em 1995.
Em 1996 prossegue os seus estudos na Universidade de Aveiro, onde concluiu a sua Licenciatura em Composição, no ano de 2000.
Estudou composição e música eletrónica com Evgueni Zoudilkin, João Pedro Oliveira e Isabel Soveral. Frequentou ainda vários seminários de composição e música eletrónica orientados pelos compositores; Jorge Antunes, Alain Sève, Tomás Henriques, Flo Menezes, François Bayle e Emmanuel Nunes.
Já lecionou na Universidade de Aveiro e no Instituto Piaget em Viseu.
Foi conjuntamente com Paula Sobral organizador e diretor artístico do Concurso e Festival Internacional de Guitarra Clássica de Sernancelhe, durante 15 edições consecutivas.
Foi o criador do Festival Internacional de Música da Primavera de Viseu, que organiza desde 2008 exercendo também o cargo de Diretor Artístico do Festival.
Em 1995 ganhou o primeiro prémio do 1º concurso de composição do conservatório onde estudou, com a obra infantil para piano, Almofada.
No Concurso de Composição Electroacústica “Música Viva 2000”, foi agraciado com uma Menção Honrosa.
Em Abril de 2001 foi premiado com a sua obra Viagem no referido concurso, integrado na Porto 2001 Capital Europeia da Cultura.
A sua música tem sido tocada em várias cidades portuguesas e em vários festivais de música: Festival Música Viva (Portugal), Primavera en La Habana (Cuba), Aveiro Síntese (Portugal), “33e Festival International des Musiques et Créations Electroniques” (Bourges – França), Concurso e Festival Internacional de Guitarra (Sernancelhe – Portugal), 14th World Saxophone Congress (Slovenia), “Guitarmania” – Festival Internacional de Guitarra Clássica (Almada – Portugal), Festival de Guitarra de Palência (Espanha), Festival Dias de Música Electroacústica (Seia – Portugal), “Síntese” – Ciclo de Música Contemporânea da Guarda (Portugal), Festival Internacional de Guitarra de Santo Tirso (Portugal), Festival Internacional de Música da Primavera de Viseu (Portugal), 8e Festival International Guitar´Essonne – (Paris – França), Dias de Música Electroacústica no Santa Cruz Air Race (Portugal), VIII Festival de la Guitarra de Sevilla – Espanha,
Tempo Reale Festival “Maratona Soundscape” em Florença Itália, Festival “The Soundscape we live in” em Corfu na Grécia, entre outros.
Algumas das suas obras resultam de encomendas de várias instituições como Festivais Internacionais de Música, Universidades, Orquestras, Museus e Câmaras Municipais.
Em abril de 2022 foi realizada a estreia mundial da sua obra para Orquestra “As 7 Trombetas e a Nova Jerusalém”. A convite da Cem Palcos, apresentou em colaboração com o escritor João Ricardo Pedro o projeto “Sete Andamentos para uma Cave” em 31 de maio de 2024. Em novembro de 2024 o seu projeto “De Tenebris ad Lucem Sonorum” foi apresentado em Viseu, Porto, Braga, Estarreja, Mangualde e Castelo Branco.
Entre março e julho de 2025 foi a presentado o projeto “A Viagem dos Capitães” em Viseu, Mangualde. Tondela, Carregal do Sal e Sernancelhe.
Diretor artístico do Festival Internacional de Música da Primavera de Viseu que fundou e dirige até hoje na sua 19º edição.
É professor de composição no Conservatório de Música de Viseu, exercendo também o cargo de Diretor Pedagógico do Conservatório desde 2004.
PEDRO BERARDINELLI
Pedro Berardinelli é compositor, natural de Viseu, e reside atualmente em Viena.
O seu trabalho tem-se caracterizado pela exploração das possibilidades técnicas e sonoras dos instrumentos, desde os de tradição clássica até aos objetos. Esta abordagem inclui uma forte componente de investigação e o trabalho em estreito contacto com o instrumento e com os intérpretes. Paralelamente, as possibilidades sonoras da voz humana e da linguagem têm também marcado a sua produção mais recente.
A sua música tem sido apresentada em diversos países e interpretada por ensembles, grupos de música de câmara e músicos como Klangforum Wien, PHACE Ensemble, Quatuor Diotima, Schallfeld Ensemble e Between Feathers, entre muitos outros.
Realizou mestrados na Universidade de Aveiro e no Centro Superior Katarina Gurska, bem como pós-graduações na Kunstuniversität Graz e na Kunstuniversität Wien, tendo estudado composição com Emmanuel Nunes, Alberto Posadas, Beat Furrer e Michael Jarrell.
Encontra-se atualmente inscrito num programa de doutoramento na Universidade de Aveiro e na Kunstuniversität Graz, sob orientação de Sara Carvalho e Beat Furrer, tendo sido bolseiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
www.pedroberardinelli.com
Carlos Lopes (1995) é um compositor, maestro e pianista natural de Guimarães. Em 2024 concluiu o mestrado em Composição com Miroslav Srnka na Hochschule für Musik und Tanz de Colónia e encontra-se atualmente a terminar o mestrado em Direção de Música Contemporânea com Susanne Blumenthal na mesma instituição.
Em 2018 venceu o 2.o prémio no “Concurso Internacional de Composição da Póvoa de Varzim”. Em julho de 2019, a sua peça 5 Variações do Desassossego foi estreada pela Orquestra Gulbenkian, no âmbito do workshop da ENOA orientado por Luís Tinoco. Durante 2021 foi Jovem Compositor em Residência na Casa da Música e em 2022 a obra Artefacst (escrita para o Remix Ensemble) recebeu uma recomendação na categoria “Compositores com menos de 30 anos” pelo 68.º Rostrum Internacional de Compositores (ROSTRUM+). Em 2025 venceu o 1.º Prémio do Prémio de Composição SPA / Antena 2 com a sua peça orquestral Rasgos de Luz.
