Drumming & Luís Tinoco – ARCHIPELAGO
23 Abril, 2026 às 21h00 (quinta-feira)
no Teatro Viriato
Entrada: 6€ • Bilhetes no Teatro Viriato
Maiores de 3 anos. Bilhete obrigatório.
Parceria Festival Internacional de Música
da Primavera de Viseu e Teatro Viriato
ARCHIPELAGO apresenta ao vivo obras gravadas no CD homónimo que foi lançado em 2019 pela editora norte-americana Odradek. Disco vencedor dos Prémios Play para melhor CD de música clássica/erudita 2019 e que obteve as melhores críticas nacionais e internacionais.
Este projeto resulta de uma longa colaboração entre o compositor Luís Tinoco e o Drumming Grupo de Percussão e apresenta obras para um variado leque de combinações instrumentais, desde solos a quartetos de percussão passando por trios a quintetos de percussão com eletrónica.
ARCHIPELAGO inclui obras para ensemble de percussão, como Short Cuts, originalmente escrita para o Quarteto de Saxofones Apollo e depois transcrita pelo compositor para quatro percussionistas, e Mind the Gap para Marimba solo dedicada a Pedro Carneiro e inspirada nas viagens de metro londrinas. Fados Geneticamente Modificados e Zoom in – Zoom out foram encomendados pelo Drumming GP. Fados Geneticamente Modificados inclui sons pré-gravados na exploração do Fado tradicional, enquanto que Zoom in – Zoom out evoca subtilmente os ritmos e melodias da música popular brasileira. Ends Meet, para marimba solo e quarteto de cordas, explora uma ideia de música circular em que os extremos se tocam, e, a obra mais recente, Archipelago, dedicada ao talentoso Miquel Bernat, combina vibrafone com tubos wah-wah, criando efeitos microtonais fascinantes. Steel Factory é uma obra excitante para steel drum ensemble, dedicada ao Drumming GP, grupo que se formou há 20 anos, em 1999, e desde então se tem afirmado como um dos mais originais e dinâmicos projetos de música contemporânea na Península Ibérica e no mundo. Em Portugal conquistou rapidamente a simpatia do público, dos músicos e agentes culturais, apresentando-se nas mais destacadas salas e festivais de música do país.
Programa
LUÍS TINOCO (1969)
— Short Cuts (F), para quarteto de lâminas (2004)
— Mind the Gap, para marimba solo (2000)
— Steel Factory, para ensemble de steel drums (2006)
— Archipelago, para vibrafone e tubos wah-wah (2019)
— Fados Geneticamente Modificados, para quarteto de multipercussão e sons pré-gravados (2018)
Ficha Artística
Luís Tinoco – Autor
Miquel Bernat – Direção Artística
Miquel Bernat, André Dias, Pedro Góis, João Tiago e Pedro Oliveira – Percussão
Suse Ribeiro – Som
Emanuel Pereira – Luz
ARTWAY – Produção
Notas do programa por Luís Tinoco
Short Cuts (F), para quarteto de percussão (2004)
Dedicado ao Apollo Saxophone Quartet
Encomenda do ASQ com o apoio do Arts Council of England North West
Short Cuts foi originalmente escrita para quarteto de saxofones. Desde a sua estreia, em 2004, tem feito várias transcrições para diferentes combinações instrumentais, entre as quais se inclui a versão “F” para quatro percussionistas (dois vibrafones e duas marimbas), estreada pelo Perkool Quartet. A peça pretende jogar com o duplo sentido possível de “short cuts”. Isto é, tanto com a ideia de gestos musicais acutilantes, como com a ideia de se poder tomar um caminho diferente, mais curto, para se chegar a um determinado destino.
Mind the Gap, para marimba solo (2000)
Dedicado a Pedro Carneiro
I. Keep Left
II. Next Train Approaching
III. Currently Out of Order
IV. Keep Right
Mind the Gap é uma peça sobre Londres, com pessoas a andar pelas ruas ou a viajar de um lugar para outro. De certo modo, esta é também a minha própria viagem por esta cidade, observando pessoas condicionadas por semáforos ou sinais como “Mind the gap”, “Stand on the right”, “Walk on the left”, entre outros. Idealmente, deveríamos poder andar livremente e sem interrupções — sem termos os movimentos condicionados por indicações “parar-andar-parar-andar” — e, se possível, pelo caminho irmos colhendo maçãs de umas árvores. Mas, por outro lado, existe também algo empolgante no movimento das cidades, com o seu tráfego, as carruagens que se aproximam e afastam, os longos percursos que se desenham sobre e por baixo do solo.
Esta peça está dividida em quatro pequenos andamentos, cada um relacionando-se com uma indicação ou sinal específico. Os andamentos extremos — “Keep Left” e “Keep Right” — estão escritos para o lado esquerdo e direito da marimba, respectivamente. O intérprete tenta afastar-se do seu registo grave ou agudo mas a música “empurra-o” para que se mantenha no lado esquerdo ou direito, na sua posição original. O segundo andamento — “Next Train Approaching” — é um longo e silencioso travelling nocturno, a preto-e-branco. A viagem evita atravessar Piccadilly Circus, para se manter silenciosa. Finalmente, o terceiro andamento — “Currently Out of Order” — aborda a hesitação. Múltiplas direcções disponíveis, sem que seja necessário ou se deseje escolher uma em particular.
Steel Factory, para ensemble de steel drums (2006)
Encomenda do Drumming Grupo de Percussão
Steel Factory procura responder ao desafio de escrever para um ensemble de steel drums. Desafio, por se tratar de um instrumento com características bem diferentes daquelas a que um compositor ocidental está habituado, nomeadamente nas invulgares afinações de cada naipe na família dos steel drums, dos baixos ao lead (mais agudo). Para além das invulgares disposições das notas nos diversos instrumentos que formam o ensemble, a própria afinação de cada som não é “perfeita” (i.e., na perspectiva da afinação temperada). Naturalmente, esta “imperfeição” é um dos aspectos mais ricos na sonoridade resultante destes instrumentos que levantam, também, outros desafios no domínio de outros parâmetros como o controle dinâmico, sustentação do som, polifonia das vozes, etc. Mais surpreendente, ainda, é o desafio do intérprete que quase se vê obrigado a reaprender o instrumento e a memorizar toda uma série de posições e sequências ou padrões melódicos, cada vez que estreia uma nova peça.
Para Steel Factory, para além do interesse pelas características e possibilidades deste instrumento, procurei explorar a sua sonoridade metálica, quase “industrial”. Principalmente na região média e grave, onde o rigor da afinação da nota é menos evidente, é possível criar sonoridades que nos transportam para um universo extra-musical, mais mecânico, por vezes mais próximo dos sons electrónicos. Procurei também explorar uma dimensão coreográfica e teatral da percussão, com os intérpretes a utilizar o seu corpo e movimento, como uma extensão do imaginário industrial e mecânico que prevalece ao longo da peça. Para reforçar este tipo de gesto e de sonoridade, combinei o ensemble de steel drums com um conjunto de bongós e placas de aço (sixens). Steel Factory é dedicada aos músicos do Drumming Grupo de Percussão que, com rara e generosa paciência, foram esperando e esperando por uma peça que demorou a sair da fábrica…
Archipelago, para vibrafone e tubos wah-wah (2019)
Dedicado a Miquel Bernat
Archipelago foi escrito para vibrafone solo, expandido por um conjunto de oito tubos wah-wah afinados com alturas precisas. A afinação dos tubos, porém, não é exactamente temperada, criando-se assim alguns desfasamentos microtonais com as mesmas notas, quando tocadas no vibrafone. A ideia de arquipélago surge aqui pelas sonoridades líquidas dos timbres utilizados, mas, também, por se tratar de uma peça estruturada em pequenas “ilhas” que nos apresentam um conjunto diverso de timbres e cores, produzidos com diferentes baquetas, arcos de contrabaixo, ou com as mãos do instrumentista.
Fados Geneticamente Modificados, para quarteto de multipercussão e sons pré-gravados (2018)
Encomenda do Drumming Grupo de Percussão
Esta partitura foi escrita em resposta a uma encomenda do Drumming Grupo de Percussão, que me desafiou a criar uma música que estabelecesse uma ligação directa com o fado. Este é um género com uma linguagem harmónica rudimentar e que, ao contrário de outras expressões musicais de origem popular, não é particularmente elaborado na sua construção rítmica. A sua maior riqueza reside, essencialmente, na ornamentação melódica e na expressão vocal dos cantores. É precisamente desse registo que nascem as maiores surpresas, frequentemente inspiradas em textos que nos relatam desgostos amorosos, sentimentos de tristeza e nostalgia, num contexto de fatalidade.
Escrever para uma formação de quatro percussionistas, sem a presença de uma voz solista, significava, em parte, ficar dependente de outros parâmetros que, para mim, são menos inspiradores no fado. Como tal, procurei abordar alguns aspectos mais simples, não como uma “fatalidade” para a qual a solução residisse num trabalho de enriquecimento da linguagem rítmica e harmónica, mas colocando-os num primeiro plano narrativo e assumindo a sua rudimentaridade como ponto de partida para cada andamento.
Recorri também à manipulação de excertos de antigas gravações disponibilizadas no Arquivo Sonoro do Museu do Fado, modificando a sua estrutura, editando fragmentos, criando loops, e destacando alguns vocábulos ou pequenas frases como “os teus olhos são tão tristes”, “tenho uma luz que me guia”, “volta, que eu já perdoei”, “viver contigo”, entre outras. Maioritariamente, utilizei excertos de Fado da Luz, cantado por Alexandre Resende (1.º andamento); Último Pedido, por Berta Cardoso (2.º andamento); e Camélias, na voz de Corina Freire (3.º andamento). No entanto, no processo de manipulação genética destas fontes, podemos ainda identificar algumas inserções de outros fragmentos com as vozes de Alberto Reis, Emília Rodrigues, Jorge Bastos e Manassés de Lacerda.
Biografias
LUÍS TINOCO
Luís Tinoco (n. 1969) formou-se na Escola Superior de Música de Lisboa. Mais tarde, completou um Mestrado na Royal Academy of Music e um Doutoramento na University of York, no Reino Unido. Desde 2000, colabora com a Antena 2 / RTP como autor de programas radiofónicos sobre a música dos séculos XX / XXI. Para a mesma rádio, é responsável pela direcção artística do Prémio e Festival Jovens Músicos. Dedica-se ao ensino lecionando na Escola Superior de Música de Lisboa. Como compositor, o seu catálogo inclui obras para música de câmara, orquestra, ópera e bailado. Entre os seus trabalhos recentes destacam-se encomendas das orquestras Gulbenkian, Sinfónica Portuguesa, Sinfónica do Estado de São Paulo, Sinfónica de Seattle e Filarmónica da Radio France, entre outras. A sua música é publicada pela University of York Music Press e está disponível em CDs monográficos editados pelas etiquetas Odradek, Naxos e Lorelt.
Em 2016 obteve o título de “Associate of the Royal Academy of Music” (ARAM) e, no ano seguinte, assumiu o cargo de Compositor Residente no Teatro Nacional de S. Carlos. Foi também Compositor Associado da Casa da Música (2017) e da Banda Sinfónica Portuguesa (2019).
Miquel Bernat, percussionista premiado, é um dos maiores dinamizadores da cena internacional, contribuindo fortemente para a disseminação da percussão como meio artístico. Maestro, professor, compositor e intérprete abrange os mais diversos estilos musicais: vernáculo, erudito, experimental, música eletrónica e popular, interagindo com diversas áreas artísticas.
Com formação académica em Valência, Madrid, Bruxelas, Roterdão e Aspen Summer Music Course (EUA), Bernat foi um dos fundadores do Ictus Ensemble de Música Contemporânea de Bruxelas, toca com a Companhia de Dança Rosas de Anne Teresa de Keersmaeker, tendo já trabalhado com a Orquestra de Barcelona e a Orquestra Real do Concertgebouw de Amsterdão (Holanda).
