Ricardo Leitão Pedro

26 Abril, 2018 pelas 21h00 (quinta)
no Museu Nacional Grão Vasco


Entrada: 5€ ou 2.5€ para público afeto ao Conservatório

1.ª Parte: Ricardo Leitão Pedro

Programa

JOHN DOWLAND (1563-1626)
Pilgrimes Solace

Biografia

RICARDO LEITÃO PEDRO
Tenor e Alaúdista
Fascinado desde sempre pelos cantores-instrumentistas da Antiguidade e a sua encarnação presente em todos os períodos históricos, Ricardo Leitão Pedro é um dos poucos músicos de hoje dedicado à prática histórica do canto al liuto, acompanhado-se a si mesmo com diferentes instrumentos de
corda dedilhada (alaúde medieval e renascentista, teorba, guitarra barroca).
Nascido no Porto em 1990, começou a busca pelo alaúde e pela música renascentista após assistir a um concerto de Hespérion XXI, encorajado pelo então professor de guitarra clássica Pedro Fesch. Um ano depois é aceite na licenciatura em música antiga da ESMAE (Porto), concluída em 2013, durante a qual residiu por um ano em França com uma bolsa Erasmus para estudar no Conservatoire National Supérieur de Musique et Danse de Lyon na classe de Eugène Ferré.
Durante este período estudou com Ronaldo Lopes e Hugo Sanches (alaúde e baixo contínuo), Pedro Sousa Silva (fontes, temperamentos, solmização, técnicas de diminuição), Yves Rechteiner (baixo contínuo, repertório seicento), Barbané Janin (improvisação, cânones, retórica barroca) e Jean Tubéry (técnicas de diminuição e improvisação).
Membro dos ensembles I Discordanti (ensemble EEEmerging 2016, século XVII italiano e francês, concertos em França, Itália e Suíça) e Concerto di Margherita (ensemble EEEmerging 2017, grupo de cinco cantores-instrumentistas, seicento italiano, tournée em Itália, concertos na Suíça), é
regularmente convidado a colaborar com outros grupos tanto enquanto cantor como alaúdista (Troxalida, La Boz Galana, Domus Artis, Capella Sanctæ Crucis).
As grandes produções barrocas e clássicas também fazem parte da sua experiência como coralista (Requiem de W.A.Mozart no Porto, Gesù al Calvario de J.D. Zelenka e Oratorio de Natal de N. Porpora em Basel) e continuísta (Fairy Queen de H.Purcell em Lisboa, Dido & Aeneas também de H.Purcell em Genebra e Paris, Paixão Segundo São João de J.S. Bach em Lisboa, Aveiro e Viseu).
Em duo com o alaúdista Guilherme Barroso ganhou o 2º prémio (1º não atribuído) da competição JIMA (Oeiras, Portugal) na categoria de música de câmara.
Ao longo dos anos, teve o privilégio de aprender com cantores como Gerd Türk, Patrizia Bovi e Kathleen Dineen e alaúdistas como Paul O’Dette, Eduardo Egüez, Hopkinson Smith e Rolf Lislevand.
Vive em Basel e estuda na reconhecida Schola Cantorum Basiliensis onde concluiu a licenciatura em alaúde com Crawford Young especializado-se em repertório medieval e renascentista (notação, danças históricas, improvisação modal, análise musical dos séculos XIII a XVI, contrapunto alla
mente
).
Atualmente, é aluno de mestrado em performance na classe de canto medieval e renascentista de Dominique Vellard continuando o estudo de alaúde com ênfase em técnicas históricas de improvisação.

Sobre o Programa

JOHN DOWLAND é reconhecido hoje como um dos grandes alaúdistas e compositores de canções na história da Grã- Bretanha, junto com Henry Purcell e Benjamin Britten.
Respeitado desde cedo como venerando mestre alaúdista, a sua fama alastrou-se a nível europeu com a publicação do primeiro livro de songes or ayres (1597), seguido do segundo (1600) e do terceiro (“…and last booke“) em 1603, todos sendo objecto de várias re-impressões.
A importância de Dowland na história da música está no papel que teve na criação do que viria a ser o género de lutesong inglês, absorvendo elementos de baladas populares, danças, canções de consort (grupo de violas da gamba) e do madrigal italiano.
O formato inovador utilizado no seus livros, destinados a ser dispostos sobre uma mesa ao redor da qual os músicos poderiam ler a música da mesma folha, influenciou todas as coleções de canções publicadas posteriormente.
A melodia escrita junto à tabulatura (tipo de notação musical para instrumentos dedilhados e outros) convida à performance solística do cantor que se acompanha a si mesmo no alaúde, numa tradição que remonta à mitologia grega na figura de Orfeu (citado no epigrama de Thomas Campian acima) e aos cantaredi da Idade Média italiana.
Apesar da sua fama em vida e até aos dias de hoje, pouco sabemos acerca do local de nascimento deste “Orpheu Britannicus” (apelidado assim por um contemporâneo) nem é certo sequer que tenha nascido em Inglaterra.
O compositor não foi chamado a servir em terras de Sua Majestade até aos últimos anos da sua vida, tendo-a passado maioritariamente ao serviço de diversas casas nobres no continente, sobretudo viajando com o séquito do rei Cristiano IV da Dinamarca. A sua fé católica e envolvimento mais ou menos inadvertido com alegados traidores da Coroa Britânica poderá ter contribuído para esta situação da qual se lamentou toda a vida, tendo-se apresentado diversas vezes à consideração para vagas entre os músicos da corte, sempre sem sucesso.
Felizmente para nós, um último livro veio a ser publicado em 1612, A Pilgrimes Solace, aos 50 anos de idade de Dowland, segundo o próprio declara no prefácio.
Nesta derradeira obra, o espírito dramático inspirado pelas novas tendências em Itália (como a Camerata Fiorentina de Bardi e compositores como Caccini, ele próprio cantor-alaúdista) e o contraponto de expressão arrojada e direta dos diferentes afetos é mais presente que nunca em Dowland, abrindo caminho para todo uma geração vindoura de orphei, britânicos e não só, criada à sombra do mestre semper Dowland, semper dolens (“sempre Dowland, sempre triste”).

O concerto