Canções Heróicas e Canções de Resistência

25 Abril, 2021 pelas 19h00 (domingo)
no IPV, Aula Magna

Concerto livestreaming em: www.musicadaprimavera.pt // Youtube

Programa

BERTOLT BRECHT (1898-1956)
Das Lied vom toten Soldaten

HANS EISLER (1898-1962)
Horatios Monolog

GEORGES AURIC (1899-1983)
Richard II Quarante

KURT WEILL (1900-1950)
Und was bekam des Soldaten Weib?

FERNANDO LOPES-GRAÇA (1906-1994)
Cuatro canciones de Federico Garcia Lorca:
Canción tonta
Sorpesa
Serenata
Muerte de Antoñito el Camborio

FERNANDO LOPES-GRAÇA (1906-1994)
Canções Heróicas:
Cantiga de amigo
Cantiga de escárnio
À mocidade das escolas
Canção campista
Data
Trovas da prisão
Canção de esconjuro
Crucifixo
Exaltação
Canção das sombras
Ronda

Ficha Artística

Ana Ester Neves – Soprano
Luís Rodrigues – Barítono
Mário Redondo – Barítono
Músicos da Orquestra Sinfónica Portuguesa:
António Figueiredo – Violino
Joana Tavares – Viola
Irene Lima – Violoncelo
Cândida Oliveira – Clarinete I
Jorge Trindade – Clarinete II
Carmen Cardeal – Harpa
Pedro Araújo e Silva – Percussão
João Paulo Santos – Piano e Direção

Mecenas: Quinta do Perdigão


Estas canções contribuíram de uma forma inequívoca para a solidificação de um espírito de resistência e de contestação a um estado totalitário de direita do Estado Novo salazarista e assumiram-se também como as sementes das futuras canções de intervenção. As suas mensagens, de deliberada esperança num futuro diferente, disseminam-se nas diversas composições de poetas anti-fascistas nos quais o compositor Fernando Lopes Graça se apoiou. Exemplos de José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, João José Cochofel, Antunes da Silva entre outros.
A “heroica” «Acordai» de Lopes Graça proclama: “Acordai homens que dormis a embalar a dor dos silêncios vis vinde no clamor das almas viris (…) Acordai acendei de almas e de sóis este mar sem cais nem luz de faróis. Os nossos heróis dormem nos covais. Acordai!”.
Este apelo ao despertar dos nossos heróis oprimidos pela dor prossegue com um chamamento à unicidade, ao espírito gregário, condição sine qua non para enfrentar o poder instituído. Esta invocação simultaneamente dramática e vigorosa visa abalar a consciência dos heróis que têm de assumir a liderança dos opositores com vista à libertação de um povo até ao momento sem rumo, sem mar, desnorteado. Conforme o tema “Jornada” no refrão: “vozes ao alto, vozes ao alto unidos como os dedos da mão havemos de chegar ao fim da estrada ao som desta canção.”
Lopes Graça considerou as suas canções “politicamente empenhadas”; citado por Eduardo M. Raposo (Canto de Intervenção. Lisboa, Público, Comunicação Social, SA, 2007, p.27) “(…) no sentido, ou na medida, em que pretenderam contribuir para a luta do povo português, a que primordialmente foram destinadas, contra o regime despótico, antidemocrático e violentador de corpos e almas que durante cerca de cinquenta anos lhe foi imposto. Eram, pois, essas obrinhas, essas canções uma arma: uma arma pacífica, mas não inocente ao serviço da nossa oprimida grei, da sua libertação, da sua exaltação, da sua fraternização.”
Fernando Lopes-Graça, compositor, pianista, pedagogo, crítico e ensaísta, escreveu no prefácio à obra “Marchas”, danças e canções (Lisboa: Seara Nova, 1946) “(…) Só mediante o veículo da música, através do canto, ela pode viver verdadeiramente e agir a fundo sobre a sensibilidade, estimulando à acção. É o que se pode verificar através de toda a história, nos períodos em que as consciências se acham abaladas e os homens sentem a necessidade de comungar e de se fortalecer num mesmo ideal.”

Biografias

ANA ESTER NEVES
Reconhecida intérprete do canto lírico português, afirma-se no panorama musical pela sua qualidade e versatilidade vocais que lhe permitem abraçar projetos muito contrastantes, desde a música barroca à contemporânea, passando da ópera ao musical.
Diplomou-se em Canto pelo Conservatório Nacional de Música de Lisboa e prosseguiu os seus estudos na Royal Academy of Music em Londres onde obteve uma Pós-graduação em Ópera e posteriormente na Universidade de Boston, na School for the Arts, onde concluiu o Mestrado em Interpretação Vocal.
A intensa diversidade da sua carreira tem-na levado a apresentar-se em Portugal, Inglaterra, Áustria, Alemanha, Itália, Grécia, Espanha, França, Brasil e EUA, quer como recitalista, quer como Solista de Orquestra. Também do repertório operático destacam-se as suas interpretações de Micaela na ópera “Carmen”, Musetta em “La Bohéme”, La Contessa em “As Bodas de Figaro”, Tatyana em “Eugene Onegin”, Bess em “Porgy and Bess”, D.Elvira em “D.Giovanni”, Xenya em “Boris Godunov”, Lady Billows em ”Albert Herring”, Laura em “Neues vom Tage”, Violetta em “La Traviata”, Tosca em “Tosca”, Cio-Cio-San em “Madama Butterfly”, a Mãe em “Ahmal and the Night Visitors”, entre outras.
Estreou a ópera “The Bacchae” no papel principal de Agave de Theodore Antoniou, em Atenas.
É sua preocupação a divulgação do repertório português, pelo que o tem apresentado nas salas portuguesas mais importantes e também no estrangeiro. Estreou os papéis principais das óperas “O Doido e a Morte” (D.Aninhas) e “A Rainha Louca” (D.Maria I)de Alexandre Delgado, “Édipo ou a Tragédia do Saber” (Jocasta) e “Os Dias Levantados”(O Anjo Camponês) de António Pinho Vargas e “As Três Máscaras de Ferro” (Fanny Owen)de Eurico Carrapatoso. Estreou também a Cantata “Urban Urbe” de Daniel Schvetz.
Destacam-se ainda as suas interpretações da 14.ª Sinfonia de Chostakovitch, o Requiem para o Planeta Terra de João Pedro Oliveira, o Requiem de Verdi, e El Sombrero de Tres Bicos de Falla.
Vencedora dos concursos Mary Garden e Luísa Todi, é detentora dos prémios operáticos Gilbert Betjemann e Ricordi.
Gravou a Sinfonia n.º 6 de Joly Braga Santos para a Marco Polo Os Dias Levantados de António Pinho Vargas para a EMI-Classicse Gravou também para a RTP, RDP e BBC.
É membro fundador do Trio Vissi d’Arte  e colaborou com o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa.
A sua interpretação de Mrs. Lovett em Sweeney Todd de Stephen Sondheim valeu-lhe a nomeação para os Globos de Ouro na categoria de melhor Atriz e o Prémio Bernardo Santareno de Melhor Interpretação. 
No campo da Pedagogia foi Professora Assistente da Disciplina de Canto na Universidade de Boston, lecionou Canto no Conservatório Regional do Algarve, na Universidade de Évora e no Politécnico de Castelo Branco (Esart). É Professora na Escola Profissional de Teatro de Cascais.
É convidada frequentemente para lecionar Masterclasses de Canto e tem realizado várias Ações de Formação sobre Técnica Vocal para profissionais de Voz, Locutores da Rádio e Televisão.

IRENE LIMA
Natural de Lisboa, iniciou os estudos musicais com Adriana de Vecchi e Fernando Costa na Fundação Musical dos Amigos das Crianças. Estudou em Paris com André Navarra e Philippe Muller. Apresentou‐se a solo com orquestra e em formações de câmara em vários países, designadamente Espanha, França, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Itália, Brasil e Macau. É de referir a sua atuação com a Orquestra Sinfónica da RTL, com a qual executou o Concerto de Câmara com Violoncelo obligato, de Fernando Lopes‐Graça, que lhe valeu elogiosa crítica, assim como atuações a solo com a Orquestra Sinfónica de Macau e a Sinfonia de Varsóvia, entre outras. Forma um duo com o pianista João Paulo Santos.
Gravou para a EMI‐Classics a Sonata para Violoncelo e Piano, de Luís de Freitas Branco, e um disco com obras de Vivaldi, Boccherini e Bréval. É atualmente Primeiro Violoncelo da Orquestra Sinfónica Portuguesa, lugar que ocupou igualmente na Orquestra do Teatro Real de Liège e na Orquestra do Teatro Nacional de São Carlos. Leciona Música de Câmara na Escola Superior de Música de Lisboa.
Apresenta‐se regularmente em diversos festivais internacionais e temporadas de concertos, como o Festival Internacional EUROPAMÚSICA, em Itália, ou a Festa da Música, e com pianistas como Bruno Canino, Tânia Achot, Jorge Moyano, Roberto Arosio, Sónia Rubinsky. Filipe de Sousa e Alexandre Delgado dedicaram‐lhe obras para violoncelo solo.

LUÍS RODRIGUES
Barítono. Estudou no Conservatório Nacional e na Escola Superior de Música de Lisboa. Ganhou o 2.º Concurso de Interpretação do Estoril, o 4.º Concurso de Canto Luísa Todi e o Prémio Jovens Músicos da R.D.P. em Música de Câmara, com o pianista David Santos. Obteve o 2.º Prémio no Concours-Festival de la Mélodie Française em Saint-Chamond (França) e foi o vencedor ex-aequo do concurso PoulencPlus (Mélodies de Poulenc) em Nova Iorque.
Luís Rodrigues tem vindo a construir em Portugal uma sólida carreira no domínio da Ópera, com papéis como Figaro (Il barbiere di Siviglia), Guglielmo, Albert, Nick Shadow, Sharpless, Escamillo, Gianni Schicchi, Beauperthuis, Sulpice e Don Profondo no Teatro Nacional de São Carlos, Kurwenal (Tristão e Isolda) com o S. Carlos no Centro Cultural de Belém, Mr. Gedge (Albert Herring) e Eduard (Neues vom Tage) no Teatro Aberto, Semicúpio (Guerras do Alecrim e Mangerona) no Acarte, Teatro da Trindade e Teatro Nacional D. Maria II (Prémio Bordalo da Imprensa 2000 para Música Erudita), Marcello (La Bohème) com o Círculo Portuense de Ópera e a Orquestra Nacional do Porto no Coliseu desta cidade, Tom (The English Cat) com a Cornucópia e a ONP no Rivoli e T.N.S.C., Guarda Florestal (A Raposinha Matreira) com a Casa da Música no Rivoli, Papageno, Ramiro (L’Heure Espagnole) e Sumo Sacerdote (Sansão e Dalila) na Fundação Calouste Gulbenkian, Yoshio (Hanjo) na Culturgest, Arsénio (La Spinalba) e Marcaniello (Lo frate ‘nnamorato) com os Músicos do Tejo no CCB e Giorgio Germont, Iago e os papéis titulares de D. Giovanni e Rigoletto com a Orquestra do Norte.
Intérprete de reconhecida versatilidade, Luís Rodrigues apresenta-se também regularmente em programas de Oratória, Canção Orquestral ou Música de Câmara, e é frequentemente solicitado para estrear obras de Música Contemporânea. Em todos estes géneros possui já importantes registos discográficos, sendo de destacar, no campo da Música Barroca,  a participação nas óperas “La Spinalba”  e “Il mondo della luna” gravadas pelos Músicos do Tejo para a editora Naxos.

MÁRIO REDONDO
Nasceu em Lisboa, em 1971.
Completou o curso de Formação de Atores na E.S.T.C. e frequentou o Curso de Canto da E.M.C.N. trabalhando com Manuela de Sá.
Na ópera, destacou-se como Geronimo em “O Matrimónio Secreto”, de D.Cimarosa (S.Carlos, 2000); Sid em “Albert Herring”, de B.Britten (T.Aberto, 2002); Sam em “Trouble in Tahiti”, de Bernstein (França, 2003); Ivan Iakovlevitch em “O Nariz”, de D.Chostakovtch (S.Carlos, 2006); Conde em “As Bodas de Fígaro”, de Mozart (T.Trindade, 2006); Angelotti em “Tosca”, de Pucinni (S.Carlos, 2008);  Monterone em “Rigoletto”, de Verdi (S.Carlos, 2013); Pangloss em “Candide”, de Bernstein (S.Carlos, 2013); Bonzo em “Madama Butterfly”, de Puccini (S.Carlos, 2015); e Barone em “La Traviata”, de Verdi (S.Carlos, 2018).
Mantém ainda uma atividade regular de concerto e recital, destacando-se “Histórias Americanas – A Música de Leonard Bernstein” (Antena 2, 2003); “Missa em Si Menor”, de Bach (Belfast, 2006); “Night Waltz – a música de Paul Bowles” (CCB, 2007); “Lembrando as Heróicas”, com música de Lopes-Graça (Teatro Aberto, 2014); e “Wonderful Town”, de L.Bernstein (S.Carlos, 2019).
Participou na estreia absoluta de várias obras de compositores portugueses contemporâneos, entre os quais Pedro Amaral, Daniel Schvetz, Luís Tinoco, Edward Luiz Ayres d’Abreu, José Eduardo Rocha e Luís Soldado.
Participa regularmente no Festival de Mafra, Dias da Música (CCB), e na iniciativa Foyer Aberto do T.N.S.C.

JOÃO PAULO SANTOS
Nascido em Lisboa em 1959, concluiu o curso superior de Piano no Conservatório Nacional desta cidade na classe de Adriano Jordão. Trabalhou ainda com Helena Costa, Joana Silva, Constança Capdeville, Lola Aragón e Elizabeth Grümmer. Como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian aperfeiçoou-se em Paris com Aldo Ciccolini (1979-84). A sua carreira atravessa os últimos 43 anos da história do Teatro Nacional de São Carlos onde principiou como correpetidor (1976). Seguiu-se o cargo de Maestro Titular do Coro (1990-2004); desempenha atualmente as funções de Diretor de Estudos Musicais e Diretor Musical de Cena. Estreou-se na direção musical em 1990 com The Bear (W. Walton), encenada por Luís Miguel Cintra, para a RTP. Tem dirigido óperas para crianças (Menotti, Britten, Henze e Respighi), musicais (Sondheim), concertos e óperas nas principais salas nacionais. Estreou em Portugal, entre outras, as óperas Renard (Stravinski), Hanjo (Hosokawa), Pollicino (Henze), Albert Herring (Britten), Neues vom Tage (Hindemith), Le Vin Herbé (Martin) e The English Cat (Henze) cuja direção musical ganhou o Prémio Acarte 2000. Destacam-se ainda as estreias absolutas que fez de obras de Chagas Rosa, Pinho Vargas, Eurico Carrapatoso e Clotilde Rosa. A recuperação e reposição do património musical nacional ocupam um lugar significativo na sua carreira sendo responsável pelas áreas de investigação, edição e interpretação de obras dos séculos XIX e XX. São exemplos as óperas Serrana, Dona Branca, Lauriane e O espadachim do outeiro, que já foram encenadas no Teatro Nacional de São Carlos e no Centro Cultural Olga Cadaval. Fez inúmeras gravações para a RTP e gravou discos com um repertório diverso. Colabora como consultor ou na direção musical em espetáculos de prosa encenados por João Lourenço e Luís Miguel Cintra.